11 de maio de 2013

Além da materialidade

Igor Teo | 8 de maio de 2013
No nosso último texto recebi um comentário de um leitor que, dentre outras coisas, dizia acreditar que “a psicologia é muito materialista e limitada, não tem condições de analisar por completo o ser humano, pois este último é muito mais do que um mero pedaço de carne”. Creio que tal afirmação merece uma análise mais detalhada, o que faremos agora.

Como é da praxe, sempre que queremos remontar ao significado de algo, apelamos para a etimologia da palavra. Psicologia vem do grego psykhé + logos, onde psique deriva do grego psychein (“soprar”), palavra que significava originalmente “alento” e posteriormente, “sopro”. Dado que o alento é uma das características da vida, a expressão “psique” era utilizada como um sinônimo de vida e por fim, como sinônimo de alma, considerada o princípio da vida. Logos por sua vez é geralmente traduzido como razão. Percebemos assim que psicologia poderia muito bem significar estudo ou conhecimento da alma.

Lembramos, no entanto, que a psicologia como ciência é algo recente. Sua história oficial data como início o laboratório experimental de Wilhem Wundt, em 1879. A escolha desta data não é por acaso. Sob influência da filosofia positivista, a ciência buscava abandonar toda metafísica, abordando suas questões a partir de uma perspectiva materialista, empírica e objetiva. Apenas quando a psicologia adquiriu um caráter experimental nos laboratórios que ganhou o status de ciência.

Entretanto, a psicologia não se reduziu a isso. Se antes mesmo já existiam, depois não faltaram vertentes que questionaram este modelo autoritário de ciência que exclui fenômenos que não se pautam pela mesma epistemologia. E nisso qualquer um de nós vai concordar com o leitor: o ser humano é de fato mais do que um pedaço de carne. Estamos atentos a isso na pretensão de compreender o que são pensamentos, ideias, sentimentos, emoções e suas respectivas condições de surgimento.


Óbvio que vozes e discursos de certos modelos científicos ainda existem. Há de fato organicistas que acreditam que pensamentos e emoções são apenas produtos de interações entre diferentes regiões do sistema nervoso, respostas do organismo às necessidades do ambiente e da sobrevivência. E ainda que não concordemos com eles, devemos perceber que possuem bons argumentos para isto. Antes de os criticarmos, podemos entender que diferentes modelos de entendimento podem coexistir e até se completarem na compreensão dos fenômenos. O aspecto metafísico dos pensamentos e sentimentos está assentado em bases biológicas, mas também existe além do mesmo, podendo o influenciar. Neurologia e psicologia hoje têm atuado juntas, e comparando com os estudos de computação, podemos dizer que enquanto uma se dedica ao Hardware, a outra trabalha com o Software.

De fato, além de componentes materiais, há algo nas cognições e emoções que é ditado por leis que não se encontram expressas em nenhum gene. Há um domínio de interações sociais não materiais que determinam os processos mentais. Por exemplo: um sujeito sofre grande estresse em seu trabalho. Este estresse diário faz com que ele desenvolva algumas desordens psicológicas que nos serão conhecidas como patologias. Uma perspectiva biológica reducionista poderia tentar medicá-lo, sedando as sensações que seu sistema nervoso recebe do ambiente de trabalho. O sujeito pensará até que está melhor, quando, na verdade, a aparente melhora não passa de uma “máscara”. O ambiente de trabalho continua sendo um lugar estressante, e que apesar do paciente não apresentar mais sintomas físicos, continuará sendo psiquicamente influenciado pelo estresse. Se hoje a medicação impede de aparecer sintomas, no futuro ele poderá apresentar problemas que marcaram profundamente sua história de vida.

Não estou aqui falando contra a medicalização, pois em muitos casos é necessária. Entretanto, é importante sinalizar que a banalização da mesma impede a promoção de uma saúde verdadeira. Cala-se o sintoma quando o mesmo é na verdade a expressão de que há algo errado na vida daquele sujeito, e que a causa também deve ser combatida, e não apenas a sua consequência. No exemplo, ações que busquem a melhora daquele ambiente ou mesmo intervenções clínicas que viessem a ensinar aquele sujeito a lidar melhor com suas questões podem vir a solucionar a situação sem todo o gasto financeiro que a indústria farmacêutica exige. Há uma diferença significativa no investimento em ações que realmente fazem a diferença, ao invés de tentar tapar buracos com palha. Tapar um buraco com palha não evita que alguém que pise nele venha a cair e quebrar uma perna, só o faz invisível, e a sua ilusão de inexistência só faz com que mais pessoas venham a pisar nele e também se machucarem.

Há um domínio de intervenções subjetivas que não se pautam pelo que chamamos de materialidade e que possuem grande efeito. Deste modo, não creio que podemos dizer que a psicologia seja materialista. Tampouco podemos dizer que ela é de algum modo metafísica. Há, todavia, certamente um domínio de intersubjetividade, que nos liga uns aos outros. Deste modo, prefiro pensar que a psicologia é apenas a psicologia, um campo muito grande e diverso de estudos e práticas acerca do ser humano. Suas limitações fazem parte de nossa própria condição de sujeitos num mundo complexo, e não apenas ela como qualquer outro saber está submetido a essas mesmas limitações. Sua eficácia está além de nossa crença ou descrença, mas comprovada em infinitos casos diários espalhados pelo mundo.


Internamente, a psicologia se divide em diversas escolas, que variam de acordo com suas próprias orientações epistemológicas, o que demarca a psicologia como um campo amplo, diversificado e complexo. Portanto, antes de a classificar, precisamos saber que existem diversas abordagens em psicologia, umas até se pautando pelo que pudesse a vir se chamar de materialismo, enquanto outras eu diria que não. Mas além do que simples opiniões, são todos conhecimentos sólidos e embasados por uma grande gama de estudos. E ainda que uma orientação não concorde em todos os aspectos com outras, sempre há um espaço de diálogo em que posições contrárias se complementam e trazem um maior entendimento acerca de nossas questões. Talvez seja ainda incompleto? Sim. Mas eu prefiro pensar que sempre há muito mais a descobrir e aprender do que acreditar já saber tudo de necessário e me dar por satisfeito com o pouco que já tenho. Nesta perspectiva, creio que uma “análise por completo” sobre qualquer assunto, vinda tanto da psicologia, como de qualquer outro conhecimento, como por exemplo, economia, sociologia, física, religião, ou qualquer filosofia,  seria uma fantasia utópica que pouco favoreceria o nosso desenvolvimento intelectual.
Por fim, Alan Moore nos conta uma piada (com o sempre presente fundo de verdade) para refletirmos sobre a eficácia simbólica através de Aleister Crowley em Promethea.

Havia dois homens dividindo um carro ferroviário. Eles não se conheciam, só estavam viajando juntos por acaso. Um dos homens tinha guardada em sua capa uma caixa de papelão, com buracos feitos no topo. Depois de um tempo imaginando o que havia dentro da caixa de seu companheiro de viagem, o outro homem não conseguiu conter sua curiosidade. Ele disse:
- Com licença, eu não pude deixar de notar sua caixa. Por acaso há algum tipo de animal aí dentro?
O outro homem sorriu e educadamente respondeu:
- Você está absolutamente correto. Há mesmo uma criatura dentro desta caixa. E na verdade, eu posso até revelar, que o animal em questão é um Mangusto.
Surpreso com a revelação, o homem que iniciou a conversa procurou uma explicação maior dessa informação, certamente provocativa, do estranho viajante:
- Um Mangusto? Senhor, eu confesso que não esperava que fosse uma criatura tão exótica e estrangeira. O animal que mencionou atiça tanto minha curiosidade que eu imploro para que diga mais. Qual sua relação com essa espécie, se me permite a ousadia?
O outro homem, meio constrangido, respondeu:
- Bem, é algo pessoal, já que se trata de uma tragédia familiar. Sabe, essa história triste é sobre o meu irmão mais velho. Ele sempre foi o que você poderia chamar de ovelha negra da família. Ele sempre se satisfez em vícios comuns e previsíveis, sendo o pior de todos seu apreço por bebidas fortes. Suas bebedeiras continuaram até ele chegar ao estágio final de melancolia, o delirium tremens. Meu irmão agora vê serpentes em todos os cantos, por isso estou levando este Mangusto para ele, para que possa se livrar delas.
- Me perdoe – o outro homem interrompeu, parecendo confuso – mas essas cobras que seu irmão vê não são cobras imaginárias?
Seu colega viajante responde:
- De fato. Mas esta – e aqui ele gesticulou dramaticamente para a caixa perfurada – é um mangusto imaginário.

10 de maio de 2013

Filme e ocultismo...

Olá a todos!
Já faz algum tempo que não posto por aqui e é bom estar de volta.
Hoje vou abordar um resumo inicial de um filme que assisti ontem. O filme é de 2009, seu título original é "the day the earth stood still" - "O dia em que a terra parou", com o Keanu Reeves (o mesmo que fez Matrix).
No filme, uma "raça alienígena" vem a Terra recolher informações de como os humanos são, como vivem e se comportam, sendo que as respostas não são nada animadoras.
Reeves se encontra com outro da mesma "raça", ao qual ele pede por informações a respeito de como os humanos são e seu "julgamento final". Este outro revela que os humanos são destrutivos, não conseguem viver em harmonia, estão sempre conflitando com alguma coisa, mas que acima de tudo, por pior que eles sejam, ele os ama, pois existe algo neles que ele não sabe explicar, mas os ama (Isso me lembra um certo  alguém que morreu na cruz para salvar a humanidade...).
Este filme, na minha opinião, é lotado, lotado de ocultismo. Do inicio ao fim, é algo extremamente surpreendente. Reeves chega a terra revestido por uma "placenta" - colocando em termos ocultistas - o manto do universo. Seu corpo tem a forma humana, mas não é definido, sendo uma mistura de branco com todas as outras cores (parecendo mesmo refletir uma galaxia inteira).
A nave da qual ele vem é a representação de um planeta... bem... uma sephiroth pra ser sincero =).
Ao aterrizar, um cerco é armado ao redor da nave e num ato precipitado, um tiro é disparado contra o "alienígena", despertando assim um robô que sai da nave - o guardião - e o defende quando sob ameaça.

Isso é um  apenas um pequeno resumo do que estou sintetizando sobre este filme incrível.
Vou trazer a resenha completa, com todos os detalhes ocultistas que eu conseguir enxergar, no próximo post.

Ainda estou "boquiaberto" com o filme e toda a riqueza que ele tem.

Obrigado a todos!

Rodrigo Tonin

8 de maio de 2013

V de Vingança contra a PEC

Salve Galera , vejam uma  adaptação de 3 minutinhos  do filme " V de vingança" sobre o que está acontecendo em nosso país . 



A PEC 37, se aprovada, significará o aumento sem limites da corrupção no Brasil, será um verdadeiro desastre para nosso país. Tirar o Ministério Público das investigações é um crime contra a população brasileira.
Não vemos nenhuma mobilização da sociedade contra essa PEC 37, conhecida também como a PEC do mal.

DIGA NÃO A PEC 37! 
ASSINE A PETIÇÃO ELETRÔNICA: www.change.org/PEC37

Assinem e divulguem!
Sem mais...
Dani

29 de abril de 2013

A Alma no Éden do Amor

Paolo Zucchini

Há, na mitologia grega, o mito do amor e da alma, personificado em Eros e Psique. O mito narra o encontro, a união, o casamento entre a alma humana (Psique) e o amor divino (Eros). A fonte do texto, aqui apresentado, vem de Lúcio Apuleio, escritor latino, nascido em Madaura (c. 125), na atual Argélia, e falecido em Cartago (c. 170), através de Junito Brandão, em sua Mitologia Grega (1989, Volume II, p. 210).

Em uma cidade não especificada, conta-se que um rei e uma rainha possuíam três filhas lindíssimas. A terceira filha (a mais nova e a mais bela) chamava-se Psique. Por sua excepcional beleza, Psique ameaça o trono da velha deusa Afrodite, que, até então, era adorada como a deusa da beleza e do amor. Claro que a velha deusa não aceitou ser preterida por uma simples mortal e, ardilosamente, põe em curso um plano perverso: convoca seu filho Eros, menino alado e muito belo, para dar-lhe a seguinte incumbência: seduzir a princesa Psique e fazê-la apaixonar-se pelo mais horrendo dos homens.
 
Sem saber disso, mas temendo o pior, o rei consulta o Oráculo de Apolo e obtém a trágica resposta: "a jovem, coberta com indumentária fúnebre, deveria ser conduzida ao alto de um rochedo, onde um monstro horrível com ela se uniria". Essa união não estava nos planos de Afrodite e o "feitiço vira contra o feiticeiro". Eros é quem se apaixona por Psique.
 
Contrariando a trama afrodisíaca, Eros dá a Psique "um palácio de sonhos, num vale encantado, onde é servida por uma multidão de Vozes, que lhe atendiam até mesmo os desejos não formulados". Eros ama Psique e, mesmo sem se deixar ver (o belo ou o monstro?), torna-a sua mulher.
 
Tudo era paraíso até entrar em cena a Fama (que tudo via, ouvia e falava) e, junto com esta, a inveja e a ganância das irmãs de Psique: duas bruxas infelizes em seus matrimônios, que não aceitavam ver a irmã mais jovem "habitando um palácio de ouro, servida por Vozes, dando ordem aos ventos e casada, certamente, com um deus" Persuadem Psique sobre o vaticínio oracular: seu erótico amor era "uma serpente enroscada em mil anéis, com as faces túrgidas de peçonha, a boca larga como um abismo"; o marido (ou o monstro) tinha que ser descoberto, desmascarado e, desse modo, seu mistério desvelado. Psique, dando ouvido ao alheio, seduzida pela curiosidade e pelo medo, ilumina, com um candeeiro, o semblante de Eros e vê, surpresa, a mais bela de todas as feras: Eros, o deus do amor". Por descuido, queima-o com uma gota de óleo fervente, que, ao cair-lhe no ombro, desperta-o. Eros, magoado, promete punir as irmãs-bruxas e se ausenta de Psique.
 
A bela princesa inconsolada busca Eros por toda parte e, desesperada, acaba indo ao encontro de Afrodite, que, depois de humilhá-la, submete-a a quatro trabalhos impossíveis.
 
O primeiro trabalho é separar por espécie, em uma única noite, uma grande quantidade de grãos previamente misturados: trigo, cevada, milho etc. Psique é socorrida por um exército de formigas, que organizam, durante a noite, cada grão em seu monte específico. O segundo trabalho é apanhar flocos de lã de ouro que cobriam o corpo de ferozes e selvagens ovelhas. Reconhecendo ser impossível realizar tal tarefa, Psique tenta o suicídio nas águas de um rio e é salva por um caniço, que lhe ensina como realizar a incumbência: aguardar o sol se por, visto que o seu calor intenso enfurecia as ovelhas, que reagiam com chifres e mordidas venenosas; depois, era só apanhar os flocos que, naturalmente, se prendiam pelos galhos das árvores onde os animais descansavam. O terceiro trabalho (a busca da água perigosa) consistia em escalar uma fonte ladeada por ferozes dragões. Quem a socorre, desta vez, é a Águia de Zeus, que, com facilidade, realiza a tarefa. O quarto e último desafio é ir ao Hades, pedir à deusa Perséfone o "creme da beleza imortal" e trazê-lo para Afrodite. Sua tendência, novamente, é para o suicídio: precipitar-se do alto da Torre. Esta, porém, reanima-a e dá-lhe instruções para vencer o derradeiro desafio. Após conseguir o creme, Psique é seduzida, mais uma vez, pela curiosidade, abrindo a caixinha. Em lugar da beleza, encontra o sono eterno dos mortos.
 
A história continua quando Eros (como herói infante) vem despertar sua princesa adormecida. Na narrativa do mito (Apuleio-Brandão), Zeus, ao final, saúda o casal e consagra tal união por toda a eternidade.
 
 
 
Porém, com Fernando Pessoa, que resgata o toque lírico da bela história de amor grega, o final é enigmático, uma vez que Eros, ao buscar Psique, acaba descobrindo que ele é a própria Psique, transfigurada em Amor:
 
Eros e Psique (Fernando Pessoa)
 
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.
 
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por que à Princesa vem.
 
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
 
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que infortúnio tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
 
Mas cada um cumpre o seu Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
 
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
 
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 
Psique (o dia ou o Ego) ilumina a noite, articula o inconsciente e ama Eros, mas acaba dormindo seduzida pelo ardil afrodisíaco do sono, na região dos mortos. Porém, Eros, iluminado pela egoica chama de Psique, contraria os desígnios maternos e acaba por despertar seu amor do eterno encantamento. A inconsciência do deus e a consciência da princesa descrevem, assim, movimentos opostos e complementares. Psique vai com sua beleza ao profundo inconsciente erótico e, lá, torna-se presa de um obscuro encantamento. Por outro lado, Eros, que vem, misteriosamente, do inconsciente amor, ao ver a princesa e por ela ser descoberto (iluminado), retribui-lhe, em seguida, este amor e desperta sua bela adormecida. O sono de Psique, por sua vez, servirá para Eros despertar, definitivamente, de sua consciência. O sono encantado é, portanto, o motivo primordial de um resgate: o resgate de si mesmo para a humana consciência da beleza. Psique retira-se do mundo para entregar-se ao amor de Eros. É no espaço de encantamento do sono que o amor é presente e a alma, a ausência. Ela ausenta-se do corpo e ele presentifica-se nesta falta. No poema de Fernando Pessoa, o Infante (guerreiro e conquistador) precisa ultrapassar um obstáculo primordial: o muro, que é fronteira e é prisão, uma vez que, ao mesmo tempo que protege, aprisiona. Assumir o amor pela princesa é percorrer a estrada horizontal da alma e nela desenvolver seu psiquismo (ou seu narcisismo egoico). É para isto que vem o Infante: despertar-se, despertando a princesa adormecida. Se, para o deus, amar a beleza na consciência humana é um mal, para o Infante, paradoxalmente, é um bem: cortar o cordão umbilical do narcisismo materno é amar Psique. É neste ato de ruptura múltipla (cortar o cordão e romper o hímen) que Eros desenvolve seu narcisismo egoico, haja vista que despertar a princesa é ir ao encontro de si mesmo. Errado é o caminho que, em sentido contrário, vem ao encontro de seu oposto complementar. A princesa que jaz adormecida no encantamento, é, de acordo com BRANDÃO (1989, vol. II p. 248), "uma mulher que ama, que deseja ser bela para ser amada, que deseja ser bela para Eros e para mais ninguém. Ao tomar tal decisão, ela renova o vínculo com seu centro feminino, com seu self". Se a jovem princesa sonha com a vida na morte, freudianamente, este sonho é a expressão ou a realização de um desejo reprimido: seu fiel amor por Eros. É aí, no espaço sonífero, que o real é bloqueado e a identidade egoica é dissolvida: o Eu é o Outro e o Outro é o Eu. No sono, cujo semblante é a morte, a vida se ornamenta com a força de um desejo que quer retornar. A grinalda de hera tem tal conotação: a proteção do deus, a força vegetativa e a persistência do desejo, constituindo, assim, o símbolo feminino que revela a necessidade de proteção e o mito do eterno retorno.
 
Eis a fabulação de uma garantia: na ambrosia receptiva de Zeus existe sempre uma feliz estrada de amor. A princesa se expõe aos deuses como a consciência que ama e por este amor pode eternamente morrer.
 
Eros, dizendo-se amado por tão feliz inspiração, renova o estatuto do amor e vai buscá-lo (ou buscá-la), com o fito de, novamente, amar. Porque ama em si o amor do outro, porque quer assim esse amor que o desperta e o torna partícipe do amor humano. É aí, no espaço inconsciente do encantamento mútuo, que Eros e Psique redescobrem-se no impossível amor. Quem era quem? Psique era Eros ou Eros era Psique? Eis, aí, o reencontro definitivo, o casamento, a reunião nupcial, do personificado amor com a personificada alma. Aquele ser estendido sob o encanto sonífero do si próprio virava-se para o Eu e amava o Outro ideal. Era ele mesmo a infância interna: bela e encantada. Esse amor precisa ser ela (Psique), novamente, sua erótica imagem. Para que nasça, articule sua existência e morra iniciaticamente (como um humano morre e, amado, continue a viver).
 
Estranhar o erótico ser é voltar ao útero de tal estranhamento, como o uróboro de um duplo movimento: o uróboro constitui, dessa forma, a imagem da serpente que morde a própria cauda, a união do mundo ctônico com o mundo celeste, o movimento subterrâneo da serpente,  o círculo que circunscreve. Também é a união dos contrários: o céu e a terra, o bem e o mal, o dia e a noite, o Yin e o Yang, o Id e o Ego. Em Eros e Psique, o movimento do uróboro é duplo: a princesa, se descobre o infante, ilumina seu amor por ele e por ele (Eros) se encanta e, se o infante encanta a princesa, oculta sua alma e por ela (Psique) se descobre. Assim, o Amor casa-se com a Alma e os deuses tornam-se humanos.
 
O reprimido inconsciente resiste em exteriorizar-se e esta resistência serve ao princípio da liberdade do reprimido: a criança deseja sexualmente a vida e a realidade nega-lhe tal satisfação. Daí advém a cicatriz narcísica de cada um.
 
Pode-se imaginar, reportando-se a Freud, uma "vesícula de substância excitável. A superfície (sua área de fronteira) funciona como um órgão receptor das excitações externas. Por sua proximidade com o exterior, assume, parcialmente, sua forma e conteúdo, se assim lhe parece. O exterior é azul, o interior amarelo, e a superfície verde. Na hipótese de um exterior amarelo, ocorrerá a recepção interior do que for amarelo. Por outro lado, o que for do exterior uma cor diversa será, pelo lado interno, reprimido. Adaptando a ilustração imaginada para a identificação da consciência, a cor diversa modifica o interior, pois vive o mesmo pelo outro (o Id). No sistema consciente (pós-vesícula indiferenciada), as excitações do exterior, que provocaram as mudanças do interior até o seu limite, já não mais o modificam, mas o atravessaram para que o movimento incessante das modificações crie a consciência. A substância viva cria, para a recepção das energias do mundo exterior, um dispositivo protetor contra as excitações, papel desempenhado, na consciência humana, pelo Ego, que faz sua recepção de forma sempre defensiva e experimental. Há excitações vincadas do exterior que rompem a proteção superficial e se localizam, internamente, como traumáticas. Se, de fora da substância viva, surgem as excitações traumáticas, dentro do aparelho anímico há as excitações instintivas do organismo. Tais excitações direcionam o retorno do orgânico ao inorgânico. Eis, em Freud, a obsessão de repetição. Repetir, aqui, é voltar-se ao original, narcisicamente. A lei primordial dos instintos orgânicos é conservar para repetir.
 
Daí decorre o que se pode chamar de paradoxo vital: animar (vida) é inanimar (morte), visto que em cada novo instinto historicamente adquirido há sempre a tendência de sua conservação: o instinto primordial da vida é a morte, pois aquela sempre se dirige a esta, até modificar-se completamente. A este instinto de morte no orgânico contrapõe-se o instinto de vida cujo instinto - a célula germinativa - irá ensaiar um jogo fundamental: para os instintos de conservação do Eu que querem alcançar (por um curto-circuito) o fim último da vida, surgem os instintos sexuais, que adotarão a tática do retrair-se para continuar. Na teoria da libido (instintos de vida e instintos de morte), a fecundação, ou a dinâmica dos instintos sexuais, é um ato narcisista das células germinativas enquanto continuidade da vida.  Quando a libido do corpo retira-se do mundo exterior e direciona-se para o Eu, ocorre o narcisismo. É o que faz Eros quando alia a seu autoerotismo a ação de Psique como realização de seu amor narcisista.
 
O narcisismo, para Freud, manifesta-se na efemeridade orgânica, na hipocondria e na vida erótica dos seres humanos. A doença influencia o organismo na sua distribuição da libido, visto que o mal-estar físico desestimula o interesse libidinal do corpo pelo mundo exterior. Sua carga de libido é retraída ao Eu para encontrar-se na cura do mal orgânico. Eros, ao ser ferido fisicamente pelo óleo fervente do candeeiro, retira-se da cena erótica e retrai mais para si sua já narcísica libido. Se na enfermidade orgânica há a dor física, na hipocondria a dor não é real, mas fictícia, fantasmagórica. A dor do hipocondríaco é psíquica. Os trabalhos impostos por Afrodite a Psique têm esse objetivo: torná-la, pelo medo e pela angústia, uma sofredora e, portanto, indiferente à própria libido. O que resta a Psique é aceitar os desafios de Afrodite para continuar amando Eros. Aceitar os desafios é permitir a manifestação do poder egoico, não se permitindo cair enferma, e, assim, vencer a proibição que a impede de amar. Há, na vida erótica humana, segundo Freud, dois objetos sexuais primitivos: "o ele mesmo e a mulher nutriz". Destes dois objetos sexuais, surgem dois tipos eróticos distintos: aquele cujo objeto sexual é ele mesmo (escolha narcisista) e aquele cujo objeto sexual é a própria mãe.
 
Afrodite, ao impedir o amor de Eros por Psique, confirma seu narcisismo de deusa da beleza e mãe do amor. Ama ser amada, principalmente pela extensão viva de seu útero narcísico do amor. A perfeição da infância não é renunciada nem pode ser mantida na fase adulta, daí a tentativa de conquistá-la sob a forma de um Eu ideal, que, aqui, é a substituição do perdido narcisismo da infância, no qual o Eu era o seu próprio ideal. O amor de Eros e Psique é a reprodução do amor narcísico de Afrodite pelo filho e é, sobretudo, o retorno do amor compulsivamente erótico ao ideal inconsciente de si mesmo.
 
Psique pode ser amada como uma imortal e não como uma mulher. Conhece o paraíso erótico de um deus e ali vive o idílio de sua graciosidade. Sua alma, no originário do inconsciente, vive esse amor não-revelado. O narcisismo é, também, esse amor uterino total, no si mesmo, o não-identificado da morte nupcial preconizada pelo oráculo, onde a jovem princesa conhece o inconsciente desse amor. Se a deusa-mãe do Amor vem do mar em espumantes ondas como dádiva aos humanos, a nova Afrodite, que vem do céu por uma gota de orvalho, é uma oferenda humana aos deuses: o amor quer ver-se, siderar-se. A inconsistência do amor divino se articula no verbo da consciência humana por um mútuo reflexo: amar-se.
 
Para Psique, a noite de núpcias é a defloração de sua beleza e, para Eros, a inconsciência do amor narcísico, não identificado. Psique é o Eros que adquire a consciência do Id erótico em seu autoamor. É ele, o Ego, que promove sua descoberta. A consciência do amor, sua individuação, sua aquisição simbólica da existência na linguagem humana, constitui um ato de vitória da alma e de purificação do amor.
 
Desse modo, pode-se afirmar que o mito de Eros e Psique, para além do princípio do prazer, é mais que uma bela história de amor, na qual os amantes são felizes para sempre. As personagens centrais, nela envolvidos (um deus e uma mortal), atuam inicialmente por transferências de tradições ancestrais. Eros é o deus do Amor, que responde, inconscientemente, aos desígnios imortais de uma outra beleza, cuja origem é o útero-prisão da Grande-Mãe Afrodite. Esta é o símbolo máximo da beleza divina entre os imortais, aquela que só permite serem amados os humanos que a idolatram em estado de submissa veneração. Eros é um mero rebento dessa ginecocracia e, como tal, deve-lhe total submissão, embora possuindo a vantagem de permanecer inconsciente nesse mundo divinal da indiferenciação narcísica. Para a Grande-Mãe, Eros (o menino alado) é seu eterno infante. Psique, mesmo não possuindo o estatuto imortal de uma deusa, traz, em si, a sedutora expressão de uma bela princesa. E, desse modo, é venerada como a nova Afrodite. Um oráculo, porém, vaticina-lhe um final trágico: ser devorada por um monstro terrível. Tal atribuição remete o feminino ao ancestral sacrifício pelo masculino. O hiéros gamos, símbolo da fertilidade entre os mortais é o elemento que fecundará a jovem princesa, e Eros é esse herói-símbolo da fertilidade. Se ele vem inconscientemente por Afrodite, que o mantém prisioneiro, é por Psique (o Outro) que retorna. Não cura a ferida profunda de seu Eu com a gratuidade do leite materno, do qual, incestuosamente, se nutriu, mas com o banho de luz que gozou no leito da belíssima princesa. Se o infante silencia-se feito feto que se encolhe no útero materno, pode-se concluir que tal silêncio marca o fim de um retorno e o início de um outro: embora a velha mãe faça com que a pobre princesa amada sofra e durma, não consegue impedir, com isso, que a princesa adormecida sonhe e espere. Assim, ela sabe que, depois de iluminado, o Amor não mais existe sem a luz da Alma. Narcísico é este amor que, inconsciente e ideal, precisa de seu Ego para emergir à consciência.
 
Referências bibliográficas
BRANDÃO, Junito. "Eros e Psique". In: A Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, 1989, v. II, p. 210.
PESSOA, Fernando. "Eros e Psique". In: Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 115.
CHEVALIER, Jean. "Uróboro". In: Dicionário de Símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva et alii. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1991, p. 922.
FREUD, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
 
 
 
 

27 de abril de 2013

“Por que isso sempre acontece comigo?”

Igor Teo | 24 de abril de 2013

Trajano é um homem comum, com seus trinta e poucos anos, tem bons amigos com quem se encontra frequentemente e um emprego que lhe garante conforto. Sente-se satisfeito com praticamente tudo na sua vida, menos uma coisa: relacionamentos amorosos. Constantemente reclama dizendo que tem uma espécie de azar, pois parece ser sempre atraído pelo mesmo tipo de mulher. Segundo ele, todas as mulheres que se apaixona não querem nada com ele, sentindo-se constantemente “enrolado” por elas.

Dácia é uma mulher obstinada. Vinda de família pobre, estudou muito para conseguir entrar numa boa faculdade e conseguir um bom emprego. Entretanto, mesmo com toda sua eminente capacidade e qualificação, possui o azar de ter chefes autoritários e dominadores. Ela tenta até se manter no emprego, mas chega sempre a um momento que não suportando mais sua condição no trabalho, pede demissão. Não que resolva, pois seu chefe seguinte costuma ser muito parecido com o anterior.

O que há em comum entre Trajano e Dácia?
 Ambos têm um estranho “azar” em repetir experiências que lhe causam sofrimento.

Sigmund Freud concebia que o aparelho psíquico funcionava através do princípio de prazer, isto é, que todo sujeito em seus comportamentos busca o prazer e evita a dor com o objetivo de anular suas tensões. O princípio de prazer alterna com o princípio de realidade, que atua quando as exigências da vida impedem que nossos atos sejam guiados apenas a critério da obtenção imediata de prazer, postergando este último em conformação com as necessidades da realidade.

Entretanto, podemos nos perguntar como é possível que comportamentos e experiências cujo teor são claramente desprazerosos para o próprio sujeito não raro podem ser constantemente repetidos pelo mesmo. O que parece haver nesses casos é o que chamamos no senso-comum de “auto-sabotagem”, uma intencionalidade do próprio sujeito em se reencontrar com essas experiências, se colocando assim nestas situações reincidentemente.

Trajano, por exemplo, provavelmente conheceu diversas mulheres ao longo de sua vida, das mais diferentes personalidades. Entretanto, ele deseja se relacionar repetidamente com mulheres com uma característica específica comum. Por sua vez, há uma grande possibilidade de Dácia estar se colocando inconscientemente sempre numa posição submissa nas suas relações com os outros, permitindo que pessoas em posição de autoridade tenham com ela o comportamento que tanto a aflige.

 
Nosso cotidiano é feito de pequenos prazeres: vamos ao cinema, assistimos uma nova temporada da nossa série favorita, namoramos, estudamos, viajamos quando temos possibilidade, etc. Todos estes, no entanto, são prazeres parciais, uma vez que nenhum deles oferece uma satisfação absoluta. Pois quantas vezes mesmo nos vemos desejando algo por tanto tempo, e assim que a conseguimos, vê-se que isso não é o suficiente para nos satisfazer? Freud irá denominar o elemento que vai mais-além do princípio de prazer de pulsão de morte. Através dela que Freud entenderá a tendência à repetição, que se relaciona com a busca constante de toda pulsão pela satisfação absoluta.

Jacques Lacan dirá que nos recusamos a aceitar que a satisfação absoluta é impossível (ou nos seus termos, o gozo absoluto). Daí o apego aos sintomas, a repetir os mesmos comportamentos, como uma forma de tentar dizer a si mesmo que ainda é possível existir uma completude ali, de obter uma satisfação onde não há. Deste modo, o sintoma é um substitutivo para satisfação pulsional. Na psicanálise, porém, sabemos que nada é por acaso, havendo algo que fala no sintoma, um sentido interno ao próprio.

Lacan relaciona ainda a experiência de morte ao próprio gozo. Curiosamente, os franceses, nacionalidade a qual Lacan pertencia, denominam o orgasmo de “la petite mort” (a pequena morte). Se confiarmos na poesia da língua francesa, talvez sejam eles os que melhor conseguiram representar o momento do gozo sexual: uma curta experiência de morte em vida, o momento em que todas as tensões são anuladas, uma momentânea perda dos sentidos e um desvanecimento pontual. Há dessa forma em todo sujeito um empuxo em direção ao gozo e a morte, ou dizendo de outro modo, ao máximo da satisfação e a busca em zerar as tensões internas de forma absoluta, ao nirvana.

Apesar de alguns casos se mostrarem patológicas, podemos dizer que “felizmente” temos a neurose: a ideia de que há uma de satisfação possível em vida freia a exigência da pulsão de morte em sua satisfação absoluta. Entretanto, já que essa satisfação absoluta não é obtida, sintomas e comportamentos patológicos são substitutivos que satisfazem a pulsão.

A saída para esta aparente encruzilhada está na capacidade de resignificação das fantasias inconscientes patológicas e o abandono da posição em que o sintoma oferece uma satisfação. Afinal, este é o objetivo de uma análise: despertar o sujeito das fantasias a qual o levaram a um estado patológico e a possibilidade da resignificação de estruturas que antes seriam causadoras de sofrimento.

Nota: todos os personagens deste texto são fictícios.

19 de abril de 2013

Destruction

Estive lendo as historias de Sandman por esses tempos.
Neil Gaiman consegue, com uma ampla maestria, transportar todo o ocultismo que consigo identificar para o ambiente de Sandman de uma forma simples e sem muitas "entrelinhas" (ou parábolas).
Tudo é muito bem dito, exposto, de forma que tanto faz se você está inciando no caminho, ou se já é um veterano na jornada, conseguirá entender e captar os mais variados enigmas e chaves do quebra cabeça "divino".
O ultimo capítulo que li, Sandman e sua irmã Delirium estavam em busca do irmão Destruction após o mesmo ter resolvido deixar a família e sua função para com o mundo dos homens.
É muito belo o que ele diz a Sandman em determinado trecho da historia; ele explica de uma forma simples e direta todos os "graus" da criação, como os homens são diferentes dos perpétuos, dos demônios, espíritos, etc. Destruction explica ao irmão o poder dos homens, da vontade, e diz que mesmo não estando no comando de sua função, mesmo que ela tenha se tornado um pouco caótica, tudo continua como é, nascendo, crescendo e se destruindo.
Os capítulos que ando lendo são da edição definitiva e valem cada centavo gasto, pois é incrível como o mundo de Sandman é revelador em termos ocultistas.

Obrigado a todos;
     Rodrigo Tonin

17 de abril de 2013

O Curador Ferido - Jung e Mitos

      
  Salve galera , achei esse artigo de psicologia  muito interessante e resolvi compartilhar por aqui.
Boa leitura ;-) Dani
               
 Pensando Alguns aspectos do “curador ferido” 

   Falar em relação terapêutica na abordagem junguiana implica, antes de tudo, em reconhecer o aspecto arquetípico que envolve o processo de psicoterapia ou relação terapêutica. Para fazer esse reconhecimento, em primeiro lugar, devemos lembrar que psicoterapia em sua origem etimológica significa “cuidado ou atenção com alma”. Tanto psicologia(especialmente, a clinica psicológica/psicoterapia) quanto a psiquiatria nasceram da necessidade nossa cultura em lidar com psique por uma via propriamente científica, pois esta era uma necessidade de nossa cultura. 
   Entretanto, bem antes de Pinel, Wundt, Charcot, Freud e Jung o homem sofria do males da alma. Antes de nossa concepção científica, o homem há milênios lidava com os “males ou sofrimentos da alma” por meio das religiões ou mais especificamente das práticas mágico-religiosas, praticas essas que em nosso meio “científico” desprezamos. 
   Contudo, foi a partir dessas práticas mágico-religiosas que podemos ter uma perspectiva dos meios que a psique utilizava para se reorganizar e se curar através dos tempos. Entendam, não estou dizendo que a psicoterapia e a religião são iguais. Estou afirmando que ambas emergem da mesma necessidade humana de lidar com as adversidades da alma. 
   Por isso, Jung costumava dizer que as religiões eram sistemas psicoterapêuticos, justamente por lidar com os mesmos fenômenos que lidamos no consultório, os males da alma. Não é a toa que muitos clientes recorrem primeiramente a religião, antes de procurar psicoterapia. Entretanto, que não devemos compreender isso uma ineficácia da religião ou como se ela tivesse perdido sua “validade terapêutica”. Uma das formas, para compreendermos porque a psicoterapia ocupa o lugar que outrora foi da religião, nós é dado por Levi-Strauss, que no seu livro “antropologia estrutural”, no capitulo “O Feiticeiro e sua magia”, afirma que

Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas 
práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que a
eficácia da magia implica na crença da magia, e que esta 
se apresenta sob três aspectos complementares: existe, 
inicialmente, a crença do feiticeiro. Na eficácia de suas 
técnicas; em seguida, a crença do doente que ele cura, ou 
da vítima que ele persegue, no poder do. próprio feiticeiro; 
finalmente, a confiança e as exigências da opinião coletiva, 
que formam à cada instante uma espécie de campo de 
gravitação no seio do qual se definem e se situam ás 
relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça. 
(LeviStrauss, 1975, p. 194-5) 
   
   Os três aspectos citados por Levi-Strauss são: 
a) confiança do feiticeiro em suas técnicas; b) confiança do doente no feiticeiro; c) confiança do grupo nesse processo de cura. Esses aspectos podem ser transportados para a psicoterapia contemporânea, reconhecendo que há a necessidade 1 ) o psicoterapeuta confiar e dominar a sua técnica, 2) a confiança do cliente (que pode ser traduzida como rapport, vinculo ou transferência); 3) Reconhecimento social, crença em sua eficácia científica. 

   A eficácia psicoterapêutica e a eficácia da cura mágico-religiosa estão relacionadas por emergirem da mesma realidade psíquica. A principal diferença a psicoterapia contemporânea é uma forma de a consciência estabelecer uma ponte para o dinamismo inconsciente, buscando restabelecer a saúde psíquica. Por sua vez, a religião surge como uma expressão simbólica do próprio inconsciente na tentativa de uma reordenação psíquica. Assim, os mitos e os rituais são metáforas de dinâmicas coletivas que estão presentes no interior de cada um. 

   Por outro lado, poderíamos inclusive ampliar essas relações, se observarmos alguns resquícios da amplitude da função religiosa para o homem na linguagem. Por exemplo, o termo saúde e salvação derivam da mesma palavra latina Salus. Já em língua germânica, o termo hailag está na raiz de heilig (sagrado) e de Heil (inteiro, são, curado). 
   
   Essa correlação de salvação e saúde não é estranha quando pensamentos, que na concepção religiosa Deus ou deuses são os responsáveis  tanto pelas curas quanto pelas doenças. Ou seja, se uma doença foi um castigo de uma divindade, a pessoa que sofre deveria rever seus atos para ver onde que ofendeu a divindade, e fazer as expiações necessárias. Essa noção de causalidade divina pode ter perdido força em nossa cultura em face a ciência, apesar em vários grupos e camadas sociais essa concepção continua viva e atuante, no meio científico que, no geral, menosprezamos ou mesmo abandonamos a importância e efeito da religião no cotidiano. Segundo Jung, em nossa cultura regida pela ciência, 

Abandonamos, no entanto, apenas os espectros verbais, 
não os fatos psíquicos responsáveis pelo nascimento dos 
deuses. Ainda estamos tão possuídos pelos conteúdos
psíquicos autônomos, como se estes fossem deuses. 
Atualmente eles são chamados: fobias, obsessões, e assim 
por diante; numa palavra, sintomas neuróticos. Os deuses 
tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, 
mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam 
o consultório médico; também perturba os miolos dos
políticos e jornalistas, que desencadeiam pelo mundo 
verdadeiras epidemias psíquicas. 
(JUNG, O Segredo da Flor de Ouro) 

   As experiências humanas o fenômeno doença-cura imprimiram na psique um padrão de mobilização psíquica, que cuja imagem representacional é o mitema curador-ferido. Antes de falarmos sobre o essa dinâmica arquetípica de saúde-doença, que fundamenta a relação terapêutica, devemos rever os mitos relacionados a dinâmica do curador ferido/saúde-doença. 
   
   Algumas pessoas podem achar estranho o fato dos junguianos sempre buscarem os “mitos” ou “referências mitológicas”. Acredito que seja importante frisar que, segundo Cambpell, os mitos são metáforas. Isto é, metáforas de nossa realidade interior. Essas metáforas nos servem como modelos para um nível de apreensão da realidade, nos dando orientação e direcionamento, e, por outro lado, nos possibilitam a compreensão de processos inconscientes projetados e elaborados nos mitos. 
   
O curador-Ferido 
   Para falarmos do arquétipo do curador ferido eu gostaria de contrapor três variações desse arquétipo que nos narram acerca dessa dinâmica. A primeira tradição que nos ensina bastante é a tradição afro-brasileira, do Candomblé, pessoalmente, eu acredito que das três que vou me referir esta é a que melhor explicita a dimensão arquetípica das polaridades saúde e doença. 
   
   No candomblé, orixá que rege a saúde e a doença é Xapanã, mas, por respeito e temor, ele é mais conhecido por Obaluaê(Senhor da Terra) ou Omulu (Filho do Senhor). Um dos mitos sobre Xapanã, diz o seguinte:
Xapanã ganha o segredo das peste na partilha dos 
poderes Olodumare, um dia, decidiu distribuir seus bens. Disse aos seus filhos que se reunissem e que eles mesmos e partissem entre si as riquezas do mundo. 
Ogum, Exu, Orixá Oco, Xangô, Xapanã e os outros orixás deveriam dividir os poderes e mistérios sobre as coisas da Terra. Num dia em que Xapanã estava ausente,os demais se reuniram e fizeram a partilha, 
dividindo todos os poderes entre eles, não deixando nada de valor para Xapanã.Um ficou com o trovão, o outro recebeu as matas,Outro quis os metais, outro ganhou o mar. Escolheram o ouro, o raio, o arco-íris; 
Levaram a chuva, os campos cultivados, os rios. Tudo foi distribuído entre eles, cada coisa com seus segredos, 
cada riqueza com seus mistério. A única coisa que sobrou sem dono, desprezada, foi a  peste. 
Ao voltar, nada encontrou Xapanã para si, A não ser a peste que ninguém quisera. Xapanã guardou a peste para si, mas, não se conformou com o golpe dos irmãos. 
Foi procurar Orunmilá, que lhe ensinou a fazer sacrifícios, para que seu enjeitado poder fosse maior que os dos outros. Xapanã fez sacrifícios e aguardou. Um dia, uma doença muito contagiosa . Começou a se espalhar-se pelo mundo. Era a varíola. 
O povo desesperado, fazia sacrifícios para todos os orixás, mas nenhum deles podia ajudar. A varíola não poupava ninguém, era uma mortandade. Cidades, vilas e povoados ficavam vaizos, já não havia espaços nos cemitérios para tantos mortos. 
O povo foi consultar Orunmilá para saber o que fazer. Ele explicou que a epidemia acontecia  Porque Xapanã estava revoltado, por ter sido passado para trás pelos irmãos. Orunmilá mandou fazer oferendas para Xapanã. Só Xapanã poderia ajudá-los a conter a varíola, pois só ele tinha o poder sobre as pestes, só ele sabia o segredo das doenças. Tinha sido essa a sua única herança. Todos pediram proteção a Xapanã  E sacrifícios foram realizados em sua homenagem. A epidemia foi vencida. Xapanã era então respeitado por todos. Seu poder era infinito, o maior de todos os poderes” 
(PRANDI, 2007, p.210-1)
   Em outras narrativas acerca de Xapanã é dito que ele, quando nasceu doente e foi abandonado pela mãe (Nãnã) e criado por Iemanjá, outros falam que quando criança que foi punido com varíola por desobediência, e mesmo ele superando a doença ele continuou com as marcas e deformações da doença. O que fazia com que ele usasse palha para esconder as marcas da doença. Mesmo sendo ele senhor das doenças e das curas, ele próprio era marcado pela doença. Xapanã, Obaluaê-Omulu, é um curador que carrega suas próprias feridas, escondendo-as por debaixo de sua roupagem de palha, tanto pro vergonha de sua aparência e para evitar as reações que causa nas pessoas. 

  
    Indo para outra época, uma outra mitologia, podemos reconhecer a mesma dinâmica, no mitema grego de Quiron, o centauro. Na mitologia grega, Quiron é um personagem que não possui um mito próprio, mas, participa da história de deuses e heróis. Ele nasceu da união de Cronos e a ninfa Filira, ele foi criado por Apolo, e se tornou o mais sábio (e civilizado) dos centauros, foi o mestre de heróis como Ajax, teseus Jasão, Perseu, Enéas, Télamon, Aquiles Peleu, Aristeu, Hercules e Asclépio. No toca a nosso estudo, Quíron foi mestre de Asclépio(ou Esculápio), a quem ensinou as artes da cura, por sua vez, Asclépio se tornou o deus da medicina. 
   
    Mas, todo conhecimento nas artes da cura não foram suficientes para curá-lo, quando ele foi atingindo pela flecha de Hercules que havia sido embebida no sangue da hidra de Lerna, que era mortal, mas, como Quiron era imortal, o ferimento causado jamais curaria, causando dores intermináveis. O sofrimento de Quiron só terminou quando ele trocou sua imortalidade pela liberdade de Prometeu, feita esta troca, Zeus eternizou sua história nas estrelas criando a constelação de Sagitário. 
  
   O terceiro representante dessa categoria de curadores feridos é bem conhecido de nossa cultura, justamente por estar no centro da mitologia vigente que é Jesus Cristo. Devemos tomar alguns textos como referência: 


Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Isaias 53:3 (NVI)

   
Os profetas do antigo já previam o sofrimento do messias, que o sofrimento dele seria necessário para o perdão e a purificação de todos. 

Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados. I Pedro 2:24 (NVI) 

   As feridas de Cristo são ressaltadas na passagem onde Cristo encontra com Tomé, após a ressurreição.

Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com os discípulos quando Jesus apareceu. Os outros discípulos lhe disseram: "Vimos o Senhor! " Mas ele lhes disse: "Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei".Uma semana mais tarde, os seus discípulos estavam outra vez ali, e Tomé com eles. Apesar de estarem trancadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: "Paz seja com vocês! " E Jesus disse a Tomé: "Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado.Pare de duvidar e creia". Disse-lhe Tomé: "Senhor meu e Deus meu! " Então Jesus lhe disse: "Porque me viu, você creu? 
Felizes os que não viram e creram" 
Jo. 24-29. (NVI) 
    
   Quando estudamos atenciosamente esses três mitemas, podemos perceber que em culturas diferentes produziram estruturas muito semelhantes como o nascimento divino (Obaluae e Quíron foram abandonados no nascimento; Cristo foi perseguido e teve de ir para o Egito) os três passaram pelo sofrimento, tinham as marcas do sofrimento, mas, eles mesmos não curaram essas marcas/feridas. 
  
   A identidade entre essas representações evidenciam um arquétipo que denominamos “curador-ferido”. Entretanto, eu gostaria de ressaltar que essa estrutura arquetípica deveria ser compreendida de modo mais amplo, pois, os curadores feridos indicam que saúde e a doença estão associadas numa mesma dinâmica, são polaridades do mesmo arquétipo. Dos três exemplos, Obaluae representa melhor essa dinâmica, pois, ele é tanto o curador quanto o causador das doenças (um paralelo que poderíamos traçar, seria com Jeová, que tanto enviava as doenças quanto curava o povo).
   
   Dessa forma, poderíamos compreender esse arquétipo por essas duas vias: 
a) Curador-ferido: que dá indicações para pensarmos a temática do terapeuta; 
b) Saúde-doença: que nos permite compreender o potencial de saúde inconsciente, isto é, há sempre o potencial de vida mesmo na doença. Assim, como o símbolo do Tai Chi, o germe da saúde encontra-se na doença, e germe da doença está presente na saúde. É importante frisar que como arquétipo, essa dinâmica é comum a todos os seres humanos, não restrita a “terapeutas”. 

  Indo pela primeira via, entramos num domínio que é a percepção do “curador ferido”, que nos permite refletir acerca das pessoas que se propõe a posição de curadores ou cuidadores (que não se restringem a psicólogos, mas, também, ministros religiosos, assistentes sociais, professores, médicos dentre outros). 
   
   O aspecto fundamental dessa representação é a ferida do curador. Esta ferida pode ser compreendida simbolicamente em dois aspectos : 
1 – É uma ferida aberta na pele: Em primeiro lugar devemos focalizar a pele, que é o órgão de nosso corpo responsável pela proteção de nosso organismo, e que intermedia a nossa relação com o meio. Essa ferida aberta na pele nos fala de uma “abertura sensível” ao mundo exterior. É uma abertura ;
2 – É incurável : Ser incurável significa que ela requer cuidados contínuos. Assim, essa ferida, essa disposição a compreender e ajudar aos outros, produz “uma ponte simbólica” inconsciente, que não deve ser vista como “negativa”, mas que deve ser cuidada atentamente para não causar “infecções” 
(seja por meio de relações contra transferenciais arrasadoras ou de outras ordens), como história do movimento psicanalítico nos ensina (sugiro a leitura do livro “Luz e Trevas” de Isaias Paim). 

   Em outros, termos, essa ferida simbólica do terapeuta, por ser inconsciente, está associada com sua sombra. Essa é uma questão importante, segundo Guggenbhul-Craig:

Sombra no analista constela sombra no paciente. Nossa 
própria honestidade ajuda-o a confrontar seus fenômenos 
sombrios. Cada um de nós deve trabalhar em ambas áreas 
(GUGGENBHUL-CRAIG,1978, p.86) 

   Quando falamos de sombra devemos lembrar que esta corresponde a todos os pontos cegos (ou míopes) que temos em nossa consciência. É importante compreendermos que a sombra não é um processo apenas histórico, mas é um fator dinâmico, fazer analise não significa que você vai “exaurir” ou “dominar” a sombra, mas, apenas que você estará atento aos seus “tendões de Aquiles”, de nossa história pessoal. Quando nós, terapeutas, não permitimos a entrada desses conteúdos em nossa consciência ou não permitimos sua expressão simbólica, eles encontram outro meio, seja pela formação do sintoma neurótico ou a somatização. Por outro lado, essa sombra também vai estar associada a dinâmica arquetípica do curador ferido. 

(…)Quando uma pessoa fica doente o arquétipo de 
terapeuta-paciente se constela. O enfermo procura um 
terapeuta exterior, mas, ao mesmo tempo se constela o 
terapeuta intrapsíquico. Costumamos nos referir a este, no 
paciente, como “fator de cura”. É o médico dentro do 
próprio paciente – e sua ação terapêutica é tão importante 
quanto a do profissional que entra em cena externamente. 
As feridas não se fecham nem as doenças se vão sem a 
ação curativa do terapeuta interior. (…) O médico pode 
fechar o corte – mas, algo no corpo e na psique do 
paciente deve cooperar para que a enfermidade seja 
vencida. (GUGGENBHÜL-CRAIG, 1978, p. 98) 

   Os dois pólos do arquétipo são atuantes em nós. Quando reconhecemos o pólo que até aqui já chamamos de “ferida/doença/doente/paciente” estamos reconhecendo também a nossa limitação, esse pólo conduz o terapeuta a humildade não se achar melhor ou superior ao atendido. 
   Por outro lado, quando não reconhecemos as feridas, corremos o risco da hybris do analista, na identificação com a polaridade curadora. Essa identificação gera cisão na dinâmica do arquétipo, onde a consciência identifica com o pólo curador e a tendência é projetar o pólo oposto na relação terapêutica, isto é, no cliente. Quando isso ocorre, o terapeuta se torna o dono da verdade, não reconhece ou valoriza os desenvolvimentos do cliente, isto é, não desperta o potencial de cura do cliente, tornando-o cada vez mais dependente de si. 
   É fundamental compreendermos que as feridas do curador lhe lembram que ele é humano, que deve buscar viver e desenvolver sua vida. A ferida lhe impõe o cuidado de sua vida in lato sensu (pessoal, familiar, social). As feridas do terapeuta somente serão problemáticas quando dissociadas, isto é, quando sua relação consigo mesmo for precária. 

Referencias Bibliográficas: 
LEVI-STRAUSS, Claude. 1970. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: 
Tempo Brasileiro. 
GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de 
janeiro: achieamé, 1978. 
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 
2000 
JUNG, C. G.; WILHEIM, R. O segredo da flor de ouro: um livro de vida 
Chinesa. 11 Edição. Petrópolis: Vozes, 2001

Autor: Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257) - Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS).