26 de novembro de 2011

Suicídio e Humildade


Na sua obra  O suicídio Émile Durkheim  propõe um estudo minucioso sobre a natureza deste que é para o autor um fato social. Quando eu li essa obra, um trecho que me chamou atenção foi quanto a relação entre suicídio e pobreza. Longe de querer exaltar um princípio cristão ou fazer apologia  ao derrotismo, é interessante analisar como a humildade nos ajuda a saber posicionar em nossa vida.

Durkheim defende que o suicídio varia na razão inversa do grau de integração dos grupos sociais de que o indivíduo faz parte. Quanto mais enfraquecido é o grupo a que se pertence, menos dependente deles, e por conseqüência, depende apenas de si próprio por não reconhecer outras regras de conduta que não seja seu interesse privado. É o que o autor chama de estado de anomia.

Se a vida não vale a pena ser vivida, tudo se torna pretexto para se desembaraçar dela. Esse desligamento não se produz apenas em indivíduos isolados, de forma particular, mas o sofrimento é na verdade da sociedade, que transporta esse sentimento aos indivíduos. Se afrouxar o laço que um homem tem com a vida, é sinal que o próprio laço com a sociedade se relaxou.

Não é verdade que a atividade humana possa ser livre de qualquer freio. Todo ser, como parte do universo, está relacionado com o resto do mundo. Sua natureza não depende só de si, mas de outros seres que convive, o contêm e regulam. O freio não é físico, mas moral, isto é, social.

Se a pobreza protege contra o suicídio é porque ela mesma é um freio. Os desejos correspondem em certa medida aos meios, o que serve de indicador para o que se gostaria de possuir. Quanto menos se possui, menos se é levado a querer mais. O indivíduo é constrangido à moderação, habituando-se a isso.

A riqueza, ao contrário, diminui a resistência das barreiras que se opõe, induzindo a crer que qualquer dificuldade pode ser vencida. Quanto menos nos sentimos limitados, mais insuportáveis parecem qualquer limitação.

Não é por menos que tantas religiões celebram os benefícios e o valor moral da pobreza. É ela, pois, a melhor escola para ensinar o homem à contenção dos seus desejos. Ela nos prepara para aceitar a disciplina coletiva. A riqueza não concede a força suportar o menor revés que aconteça.

Claro que ninguém gostaria de ser pobre se fosse uma opção. Mas num sentido mais Nietiano, é interessante aprendermos a fazer da fraqueza a nossa maior força.

3 comentários:

  1. Não sou rico, mas certamente acho insuportáveis as limitações da vida.

    A pobreza unicamente faz com que as pessoas tenham de fazer mais e querer menos.

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  2. "Quanto menos se possui, menos se é levado a querer mais. O indivíduo é constrangido à moderação, habituando-se a isso."

    Isso certamente era verdade na época em que Durkheim escreveu seu livro, mas não creio que isso ainda seja válido agora. Mesmo os mais pobres têm acesso ao modo de vida e desejos de consumo dos ricos através dos meios de comunicação, da novelas... nossa sociedade consumista nos leva a querer mais, independente do quanto eu possuo.

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  3. Sim, mas há que se considerar que enquanto alguém de uma classe inferior sonha com uma BMW na sua garagem, um que já possui três na garagem de sua casa de campo terá ambições maiores.
    É muito válido pensar que todos estão inseridos na lógica consumista, mas há uma diferença entre o querer e poder entre as diferentes classes.

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